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«O Francisco foi o primeiro pequeno que me encomendaram em Olive Valley. Os médicos tinham-lhe diagnosticado Leucemia, com um prognóstico de 5 a 7 anos para viver.
Os pais eram das beiras, mas mal se casaram tinham ido para Moçambique. O pequeno, de 7 anos, já tinha longa experiência de médicos e hospitais. Aos 4 anos, partira uma perna, em Lourenço Marques, que ficara mal soldada, infectara e o pusera às portas da morte. Quando aqui chegou aos Estados unidos, foi esse diagnóstico de leucemia dado de cofre pela intérprete.
- Se ao doente se lhe diz de chofre a doença que tem, mais doetne fica, Sr. Meneses. – dizia o pai, irado. – Lá em Portugal, preparam o doente e nunca se diz à mãe que o filho lhe vai morrer!
Ontem o pai levou o Francisco, triste, de olhos baixos. – Olhou para o Francisco, fê-lo andar um pouco, e depois chamou os estagiários. Eram 10, todos à volta do meu filho, com o médico a ensinar não sei o quê.
O Sr. Antero levantou então os olhos, já rasos de lágrimas, e suspirou:
- Ontem, o meu filho foi uma peça de museu, Sr. Meneses!
- Que lhe disse o médico, Sr. Antero?
- Ninguém me dirigiu palavra durante as duas horas que lá estive.»
Já pensaste? Esta história é apenas um dos exemplos de humilhação que tantos imigrantes sofrem quando não sabem a língua e têm de lidar com médicos e hospitais.
In Cunha, Pedro D’orey (1997); Entre dois mundos; Secretariado Coordenador dos Programas de Educação Multicultural: Ministério da Educação: Lisboa.
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