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Não me chames estrangeiro, só porque nasci muito longe ou porque tem outro nome essa terra donde venho. Não me chames estrangeiro porque foi diferente o seio ou porque ouvi na infância outros contos noutras línguas. Não me chames estrangeiro se no amor de uma mãe tivemos a mesma luz nesse canto e nesse beijo com que nos sonham iguais nossas mães contra o seu peito. Não me chames estrangeiro, nem perguntes donde venho; é melhor saber onde vamos e onde nos leva o tempo. Não me chames estrangeiro, porque o teu pão e o teu fogo me acalmam a fome e o frio e me convida o teu tecto. Não me chames estrangeiro; teu trigo é como o meu trigo, tua mão é como a minha, o teu fogo como o meu fogo, e a fome nunca avisa: vive a mudar de dono.
E chamas-me tu estrangeiro porque um caminho me trouxe, porque nasci noutra terra, porque conheço outros mares,l e parti, um dia, de outro porto... mas são sempre, sempre iguais os lenços da despedida iguais as pupilas sem brilho dos que deixámos lá longe, os amigos que nos chamam, e também iguais os beijos e o amor dessa que sonha com o dia do regresso. Não me chames estrangeiro; trazemos o mesmo grito, o mesmo cansaço velho que sempre arrastou o homem desde fundos tempos, quando não havia fronteiras, e antes de virem esses, que dividem e que matam, os que roubam, os que mentem, os que vendem nossos sonhos os que inventaram um dia esta palavra: estrangeiro.
Não me chames estrangeiro, que é uma palavra triste, que é uma palavra gelada, e que cheira a esquecimento e cheira também a desterro. Não me chames estrangeiro: olha o teu filho e o meu como correm de mãos dadas, até ao fim do caminho. Não me chames estrangeiro: eles não sabem línguas, de limites nem bandeiras; olha como sobem ao céu no riso que é uma pomba que os reúne no voo. Não me chames estrangeiro; vê teu irmão e o meu, o corpo cheio de balas, beijando o solo de morte; eles não eram estrangeiros, conheciam-se desde sempre, pela eterna liberdade, e livres os dois morreram. Não me chames estrangeiro; olha-me nos olhos muito para lá do ódio, do egoísmo e do medo, e verás que sou um homem, não posso ser estrangeiro.
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